O lixo dos outros e o nosso
SE JÁ não bastassem a expressiva geração
de lixo e o fato de não haver um sistema de destinação ambientalmente
adequado, privilegiando medidas de minimização indissociáveis de
políticas de reciclagem, recuperação e reutilização, o Brasil ainda tem
que lidar duramente com um crime ambiental, ou seja, a chegada
clandestina de lixo estrangeiro pelos nossos portos.
Chama a atenção o recente episódio de interceptação nos portos
brasileiros de centenas de toneladas de diversas classes de resíduos
(domiciliares, hospitalares e perigosos) oriundos da Inglaterra que se
passavam por materiais recicláveis.
Em 2004, recebemos contêineres com cádmio e chumbo da Itália, da Espanha
e dos EUA.
Os fatos repetidos reforçam a urgência da aprovação de um marco
regulatório sobre os resíduos sólidos. Nesse sentido, o Congresso
Nacional, especificamente, tem uma dívida com a sociedade quanto à
elaboração e aprovação das diretrizes para gestão e tratamento adequado
dos resíduos.
Contudo, a partir de uma importante iniciativa do Poder Executivo -o
envio ao Congresso do projeto de lei nº 1991/07, que institui a Política
Nacional de Resíduos Sólidos- e da formação de um grupo de trabalho
parlamentar -constituído por parlamentares de diferentes partidos-, o
debate foi retomado com coesão e intensidade.
O resultado da ação do grupo de trabalho -por meio de audiências
públicas, visitas técnicas e diálogos com o governo e com setores da
sociedade civil organizada- foi a apresentação pública, em junho
passado, de um relatório final indicando as diretrizes e as premissas de
uma Política Nacional de Resíduos Sólidos exequível para a realidade
brasileira.
Uma visão pioneira que, ao desmembrar o problema do lixo em
oportunidades de desenvolvimento de novos negócios e produtos, incentiva
processos ecoeficientes, fomenta a inserção social e estabelece o
princípio da responsabilidade compartilhada entre a administração
pública, o setor produtivo e a sociedade civil organizada.
A proposta em questão insere objetivos, princípios e instrumentos até
aqui inéditos, como a análise do ciclo de vida dos produtos, a criação
de um sistema de declaração e um inventário nacional de resíduos.
Além disso, gestão compartilhada e integrada, planos de gestão (União,
Estados e municípios) e gerenciamento (setor empresarial).
É necessária também a disseminação da educação ambiental, e a inserção
de cooperativas de catadores propicia fomento de trabalho e renda.
A previsão e a atenção quanto aos resíduos perigosos, bem como as
determinações quanto à proibição expressa de destinações inadequadas e a
logística reversa, colocam um fim na possibilidade de importação de
lixo, vedando expressamente a importação, ainda que para fins de
reutilização ou recuperação. Somente se consentirá a importação de
resíduos considerados não danosos ao meio ambiente e à saúde pública,
por meio de definição por regulamento.
Um ponto que nos levará ainda a buscar consenso se refere à construção
de um modelo viável, com base em instrumentos econômicos e tributários
que fomentem processos ecoeficientes e favoreçam a inovação tecnológica,
no sentido de diferenciar, do ponto de vista tributário, os equipamentos
adequados às boas práticas, às novas oportunidades de negócios, aos
ciclos ecoeficientes e à geração de emprego/renda.
Queremos uma Política Nacional de Resíduos Sólidos definitiva, que seja
logo aprovada. Ela está delineada no seu fundamento e deverá ser
referencial para os Estados e municípios estabelecerem as suas políticas
com maior consciência na preservação ambiental.
Assim, propiciaremos mudanças de comportamento, reduziremos a geração de
lixo, aumentando a reciclagem, e impulsionaremos a reutilização de
produtos que antes pereciam por séculos, contaminando rios, solos e
lençóis freáticos.
Com o governo e o Legislativo trabalhando por um tema que interessa às
presentes e futuras gerações, não seremos a lixeira de quem quer seja.
CARLOS MINC BAUMFELD , 58, doutor em
economia do desenvolvimento pela Universidade de Paris 1, é o ministro
do Meio Ambiente.
ARNALDO JARDIM , deputado federal pelo PPS-SP, é coordenador do Grupo de
Trabalho Parlamentar para Aprovação da Política Nacional de Resíduos
Sólidos.
PAULO TEIXEIRA , deputado federal pelo PT-SP, é membro do Grupo de
Trabalho Parlamentar para Aprovação da Política Nacional de Resíduos
Sólidos.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.
Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas
brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do
pensamento contemporâneo.
Fonte: Carlos Minc, Arnaldo Jardim e Paulo Teixeira (Folha de
S.Paulo - Opinião) |
 



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