Nota Fiscal Eletrônica vai encolher o quadro de varejistas e
transformadores, aposta o presidente da Adirplast
Pedra cantada há bom tempo no ramo, a
primeira onda de encolhimento da distribuição quebrou na praia do setor
plástico em 2008, efeito do rearranjo que restringiu à Braskem e Quattor
a produção nacional de polietileno (PE) e polipropileno (PP), as
locomotivas do varejo de resinas. Agravada pela crise financeira, a
segunda onda já cresce e vai estourar por inteiro na cadeia plástica a
partir do terceiro trimestre. O vendaval agora chama-se nota fiscal
eletrônica (NF-e). Exigida desde abril para petroquímicas e importadores
de matérias-primas, caso da maioria dos distribuidores, ela alcançará em
setembro os demais varejistas e todos os transformadores. "A NF-e
reflete o início de um monitoramento de dados tão preciso pelo Fisco que
vai tornar a informalidade uma página virada na vida do país", sustenta
Wilson Cataldi, presidente da Associação dos Distribuidores de Resinas
Plásticas (Adirplast) e dirigente da Piramidal, nº 1 desse segmento no
Brasil. "A depuração será rápida. O varejo estará totalmente
transfigurado - e para melhor - já em 2010".
Cataldi percebe o roteiro desse filme dividido em três atos e seu final,
ele deixa claro, será feliz apenas para bem poucos personagens no
varejo. O primeiro ato, ele rememora, foi a percepção evidenciada pelas
petroquímicas de que uma determinada parcela de clientes de porte
significativo deveria ser atendida diretamente por elas e não mais por
distribuidores. "Aconteceu então um encolhimento do varejo natural e
benéfico, pois a distribuição teve que fazer o dever de casa para
atender a contento o micro e pequeno transformador". O segundo e
terceiro atos, resume Cataldi, constam da chegada da NF-e ao universo
dos varejistas e, por fim, nas costas dos transformadores.
Fica claro pela argumentação de Cataldi que a adequação à NF-e,
integrante de um big brother tributário já definido como coveiro da
figura do fiscal amigo da casa, exigirá um movimento mais alto e formal
de varejistas e transformadores habituados a garantir suas margens com
incursões pelo comércio marginal. Isso implica maior grau de
capitalização e aumento dos clientes em carteira, duas providências de
cumprimento complicado a curto prazo num mercado superconcorrido e sob
instabilidade econômica de término incerto. A maioria dos analistas não
aposta que as maracutaias tributárias sumirão de vez com a NF-e. Mas
concorda que cairão de forma drástica e a criação de outros estratagemas
para escapadas na informalidade exigirá engenho, arte e cuidados
redobrados perante a fiscalização informatizada.
Sob a gestão de Cataldi, hoje em seu segundo mandato, a Adirplast foi
das poucas entidades da cadeia do plástico que promoveram apresentações
para alertar o mercado sobre as consequências embutidas na vinda da
NF-e. A apatia foi a reação típica entre os ouvintes arrebanhados pela
Adirplast, rememora Cataldi, de modo que o recado foi assimilado apenas
por uma fração micro do empresariado do varejo e da terceira geração do
plástico. "Apenas esse pequenino grupo, mais antenado, investiu a longo
prazo na adequação do seu negócio à NF-e, ampliando aos poucos suas
vendas na formalidade, remodelando a estrutura organizacional e adotando
uma gestão muito mais controlada da operação", ele indica. "Agora não há
mais tempo para preparativos como expandir o giro, razão pela qual as
redes da distribuição e as revendas passarão pelo enxugamento mais
profundo", vaticina o dirigente.
Esse segundo vendaval, ele interpreta, deve enterrar várias estratégias
de crescimento sugeridas a distribuidores quando a NF-e ainda não
passava de um brilho nos olhos da Receita Federal. Uma delas constava da
compra de distribuidores ou associações entre eles. Era considerado um
meio de um agente autorizado ampliar seu giro e a carteira de clientes,
além de convir às petroquímicas representadas por efetuar a saída de
cena, sem querelas judiciais, de distribuidores ou revendedores de giro
insatisfatório ou em dificuldades financeiras, que seriam assim
absorvidos por competidores maiores e de balanço saudável. Essa proposta
perde força com a NF-e. Os custos e complexidade de implantação do
sistema nas empresas e a impossibilidade de compensar os ganhos antes
vindos do paralelo ampliando com rapidez o giro formal pendem para
decepar a quantidade de varejistas e transformadores na praça, redução
catalisada também pela contenção do crédito e sinais de inadimplência
observados no primeiro semestre. "A distribuição sairá ganhando com essa
depuração, pois herdará grande parte dos volumes comercializados
marginalmente pelas revendas independentes e atenderá um mercado menor,
mas regido pela lisura fiscal e onde os compradores prezarão mais a
competência do distribuidor do que a criatividade contábil", defende
Cataldi.
Energizante virtual para o Fisco afiar o combate à sonegação, a NF-e
exige, para ser implantada, recursos a exemplo de um banco de dados
atualizado nas informações cadastrais de clientes e fornecedores - uma
ave rara na maioria das empresas. Quanto ao custo (variável) do
enquadramento de uma companhia aos parâmetros da NF-e, as secretarias da
Fazenda oferecem um software gratuito para emissão da nota e sem limite
para utilização. No mais, companhias menores e médias encontram na praça
diversas tecnologias cobradas por utilização, caso de pacotes à base do
software, treino de funcionários, sistema de armazenamento virtual das
NF-e (obrigatório por cinco anos) e integração com outros programas que
rodam nas empresas, como gestão financeira e planejamento de produção.
O exercício do varejo de resinas em 2008 foi o primeiro monitorado pela
Adirplast. O balanço aponta, arredonda Cataldi, para 500.000 toneladas
de resinas e especialidades comercializadas pela distribuição oficial e
cerca de 100.000 pelo balcão da revenda autônoma, um dos mais
vulneráveis ao pente-fino da NF-e por ser usado com frequência como
canal de desova informal de resina. Para o conturbado exercício atual,
classificado por Cataldi como um ano de observação pelos distribuidores,
sem investimentos relevantes a divulgar, a expectativa é de empate com o
movimento de 2008. "De janeiro a maio último, a distribuição vendeu
191.502 toneladas ou -1,8% que o mesmo período um ano antes, aliás uma
prova da ausência de crise no consumo", deduz o porta-voz da Adirplast.
"O setor confia num desempenho bem melhor no segundo semestre não só
devido ao aquecimento histórico desse período, mas pelo fato de o quarto
trimestre de 2008 ter sido desastroso, um quadro que não bate com as
previsões para 2009".

Fonte: Plásticos em Revista |
 



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